BLOG DA PASTORA ZENILDA


Pra. Zenilda Reggiani Cintra
As opiniões deste blog refletem a minha visão e não, necessariamente, a de outras pastoras da CBB.
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sexta-feira, 8 de maio de 2026

A ECLESIOLOGIA BATISTA E A FILIAÇÃO DE PASTORAS NA OPBB

Como pastores e lideranças batistas em níveis nacional e estaduais/regionais podem compactuar com decisões que ferem princípios históricos, bíblicos e eclesiológicos tão caros à nossa identidade batista?

Neste artigo, o Pr. Heleénder O. Francisco, da PIB de Goiabeiras (ES), esposo da Pra. Anna Eliza, faz uma análise lúcida e necessária sobre as ameaças à nossa eclesiologia representadas pela não filiação de pastoras à OPBB — realidade vivida no Espírito Santo, mas que reflete uma problemática que se estende por todo o Brasil.


O QUE ESTÁ EM JOGO É A NOSSA ECLESIOLOGIA

Sobre a não filiação de Pastoras na OPBB-ES

Pr. Heleénder O. Francisco

PIB Goiabeiras


Antes de mais nada, preciso deixar claro que não tenho nenhuma pretensão de fazer você mudar

de ideia em relação à consagração de mulheres ao ministério pastoral. Reconheço que existem

divergências teológicas sobre o tema e entendo que tais diferenças, como tantas outras, devem ser

tratadas pela via do respeito, da cooperação e da comunhão, como nós batistas sempre fizemos.


O que eu gostaria de te convidar a refletir não é sobre o seu posicionamento pessoal a respeito do

ministério pastoral feminino, mas se um órgão auxiliar da CBB pode estabelecer critérios que, na

prática, anulam ou se contrapõem a decisões legítimas de igrejas locais devidamente arroladas à

Convenção, que, segundo os nossos próprios documentos, são autônomas e soberanas.


Portanto, passo a apresentar a seguir, alguns riscos a que as decisões que excluem pastoras da OPBB apresentam para a nossa eclesiologia.


1) VIOLAÇÃO DO PRINCÍPIO BATISTA DA AUTONOMIA DA IGREJA LOCAL


A não aceitação de pastoras e nem mesmo a aceitação de transferência das mesmas oriundas de outras seções é uma tentativa de impor uma regra administrativa que se sobrepõe à soberania

teológica da igreja.

Declaração Doutrinária da CBB - A Igreja: "Sua forma de governo é democrática e autônoma, sob o senhorio de Jesus Cristo... não tendo autoridade sobre as Igrejas as Convenções ou quaisquer

outras entidades".


Nossos DOCUMENTOS OFICIAIS reconhecem que CADA IGREJA LOCAL É AUTÔNOMA E SOBERANA TENDO PLENA LIBERDADE PARA RECONHECER E ORDENAR SEUS MINISTROS, SEM INTERFERÊNCIA DE ÓRGÃOS EXTERNOS. 


A autonomia da igreja local é uma marca indelével dos batistas e compete à igreja, e somente a ela, decidir sobre sua liderança. Portanto, 


SE UMA IGREJA LOCAL, NO EXERCÍCIO DE SUA AUTONOMIA, RECONHECE O CHAMADO E CONSAGRA UMA MULHER, A OPBB (QUE É UM ÓRGÃO AUXILIAR DA CBB) NÃO PODE INVALIDAR ESSE ATO, SOB PENA DE FERIR O PRINCÍPIO ECLESIOLÓGICO BASILAR DOS BATISTAS, o Estatuto da CBB e o próprio Estatuto da OPBB. Qualquer tentativa de desconsiderar essa ordenação fere diretamente a eclesiologia batista.


2) INCOERÊNCIA COM A NATUREZA DA OPBB


A Ordem dos Pastores Batistas do Brasil (OPBB) não é uma igreja, nem órgão de classe, mas uma

associação de caráter relacional e representativo, sem autoridade para invalidar atos de igrejas

locais ou criar critérios discriminatórios não previstos nos princípios doutrinários mais amplos.

Ao estabelecer uma vedação às pastoras, esta extrapola sua competência e cria um critério que não encontra respaldo nos princípios mais amplos da nossa tradição.

O Estatuto da OPBB diz: Art. 33. A OPBB é organização auxiliar da CBB e respeitará a letra e o espírito do estatuto da CBB (...)

Se uma pastora foi consagrada em uma igreja batista devidamente afiliada à CBB, a negativa da OPBB em filiá-la fere frontalmente todos os pressupostos que sustentam nossa eclesiologia. 


A OPBB não cria ou valida o ministério pastoral. Ela apenas reconhece aquilo que a igreja local já discerniu e formalizou.


3) CONTRADIÇÃO COM A UNIDADE DENOMINACIONAL


Impedir a filiação de pastoras ou a transferência de pastoras já filiadas a outras seções cria um abismo entre as unidades da OPBB e ameaça a unidade denominacional.

Regimento Interno da OPBB 2024, Art. 2º e Art. 62: Define que a OPBB é constituída por pastores

membros de igrejas filiadas à CBB e que a filiação/transferência deve ser registrada no cadastro nacional pela Seção.

Como a OPBB-ES é subordinada à OPBB Nacional (Estatuto OPBB-ES, Art. 2º), ao criar critérios de exclusão de gênero que impeçam o livre trânsito de filiados regularmente inscritos no Cadastro Nacional da Ordem, ela gera um "constrangimento denominacional" onde uma pastora é aceita no Rio de Janeiro, mas rejeitada

no Espírito Santo, quebrando o princípio da cooperação. Além disso, se uma igreja está devidamente arrolada à CBB, sem nenhum processo disciplinar ou de exclusão por desvio doutrinário, qual a justificativa plausível para impedir que OPBB cumpra seu papel para com essa igreja e seus pastores(as)? Ao fazer isso,

a OPBB cria uma ferida na unidade e cooperação que nossa denominação tanto defende.


4) O PERIGO DA SELETIVIDADE DOUTRINÁRIA


Antes que alguém, em seu íntimo, já esteja dizendo: “Mas isso não é bíblico”, gostaria de lembrar algo que sempre nos caracterizou como batistas. 


BATISTAS CONVIVEM COM DIVERGÊNCIAS TEOLÓGICAS SINCERAS SEM ROMPER A COMUNHÃO. Quando afirmamos que algo “não é bíblico”, precisamos também perguntar: não é bíblico a partir de qual leitura?


Esse é um exercício teológico que

todo pastor deveria se esforçar por fazer. Na questão que toco aqui, preciso lembrar que a discussão sobre a aceitação ou não de pastoras se organiza, historicamente, em duas perspectivas teológicas distintas: O IGUALITARISMO E O COMPLEMENTARISMO. 


Resumidamente, o IGUALITARISMO entende que homens e mulheres têm igual acesso a todos os ministérios da igreja, inclusive o pastoral, fundamentando-se na nova realidade inaugurada pelo Evangelho, na igualdade afirmada em textos como Gálatas 3.28 e na ação do Espírito Santo que distribui dons a quem ele quer. Assim, o critério para o exercício do ministério não é o sexo, mas o chamado, o caráter e a capacitação concedida por Deus, não vendo coerência em distinguir dom de ofício. 


Já o COMPLEMENTARISMO entende que homens e mulheres são iguais em valor e dignidade, mas

exercem papéis distintos na igreja e na família, reservando o pastorado e a liderança principal aos

homens, distinguindo o dom do ofício. 

AS DUAS PERSPECTIVAS NASCEM DE ESFORÇOS HERMENÊUTICOS SINCERAMENTE COMPROMETIDOS COM AS ESCRITURAS. Ambas desejam um alinhamento com a Bíblia Sagrada, mas CHEGAM A CONCLUSÕES DIFERENTES.


Ocorre que essa não é a única divergência teológica em nosso meio. Vejamos:

Entre os batistas, convivemos bem sendo calvinistas ou arminianos. Convivemos bem com diferentes perspectivas escatológicas: amilenistas, pré-milenistas, pós milenistas.

Entre os batistas, há os que defendem que a pertença à maçonaria é incompatível com a fé cristã e há aqueles que são maçons.

Entre os batistas há aqueles que sustentam que um pastor divorciado torna-se inapto para o ministério. E há os que sustentam que um pastor divorciado pode pastorear sem nenhum problema.

Entre os batistas temos diferentes perspectivas sobre o modo de celebrar a ceia (livre, ultra livre,

restrita, ultra restrita).

Em todos esses temas, há irmãos igualmente comprometidos com as Escrituras, que chegaram a

conclusões diferentes por caminhos hermenêuticos distintos.

Mas, a lista é bem maior. Falta espaço para falar das diferenças interpretativas relativas aos dons espirituais, dança na igreja, movimentos como Encontro com Deus ou Legendários, modelos de igrejas (células, MDA e afins), formas de conduzir a liturgia e por aí vai. TODAS ESSAS POSIÇÕES DIVERGENTES BUSCAM SUSTENTAÇÃO EM INTERPRETAÇÕES DA BÍBLIA E A BELEZA DE SER BATISTA ESTÁ JUSTAMENTE EM RECONHECER O QUE É ESSENCIAL E MANTER A COMUNHÃO NISSO. 


Todos os pastores e igrejas, apesar de suas diferentes visões doutrinárias nestes e em outros temas, continuam convivendo na CBB e na OPBB, sem problema algum. Tratar a diferença de interpretação a respeito do ministério pastoral feminino pela via da exclusão é um golpe fatal no princípio batista da unidade na diversidade. 


O que se nega às pastoras não é o exercício do pastorado (porque isso elas já fazem e

continuarão fazendo); é a comunhão e a justiça ao que a nossa eclesiologia defende.


5) O PERIGO DA INJUSTIÇA E DA NEGAÇÃO DA DIGNIDADE DE TODO SER HUMANO


Muitos que rejeitam o ministério pastoral feminino nunca ouviram uma pastora, nunca dialogaram

seriamente sobre o tema, nunca oraram a respeito e nunca tiveram contato com argumentos teológicos diferentes dos seus. Sequer pesquisaram a fundo a visão igualitarista para ter mais clareza de seus posicionamentos.

Mais grave ainda, as decisões tomadas a respeito das mulheres na OPBB se deram sem a participação efetiva das próprias mulheres diretamente afetadas. Elas sequer foram ouvidas! Não lhes tratamos com a mínima dignidade, pois sequer lhes demos o direito de poderem se defender! Isso me parece profundamente estranho ao nosso ethos batista, que sempre valorizou o diálogo, a escuta, o direito ao contraditório e a responsabilidade comunitária.

Me pergunto: É justo decidir sobre a vida de alguém sem lhe dar voz?

É justo desconsiderar decisões de igrejas locais autônomas devidamente arroladas e que jamais sofreram processo disciplinar?

É justo negar comunhão a irmãs que estão servindo nos mesmos campos que seus colegas pastores?

Ora, desde 1999 as mulheres são consagradas em igrejas da CBB. As pastoras vêm ocupando, inclusive, espaços na diretoria da CBB e da OPBB. É justo o que a OPBB-ES vem fazendo com elas?


CONCLUSÃO


Diante do exposto, clamo por humildade e responsabilidade a respeito do tema. O que está em jogo não é apenas uma decisão administrativa, mas a coerência da nossa identidade batista e da eclesiologia que abraçamos. Nunca fomos um povo de uniformidade, mas de unidade em meio à diversidade. 


A HISTÓRIA DOS BATISTAS É MARCADA PELA CONVIVÊNCIA ENTRE DIFERENTES COMPREENSÕES TEOLÓGICAS, SUSTENTADAS PELA CONVICÇÃO DE QUE CRISTO É O SENHOR DA IGREJA E DE

QUE CADA COMUNIDADE LOCAL RESPONDE DIRETAMENTE A ELE.


O que me preocupa, portanto, não é a divergência, mas a forma como lidamos com ela. Quando um órgão auxiliar estabelece critérios que, na prática, desconsideram decisões legítimas das igrejas locais devidamente arroladas, ultrapassamos limites que sempre respeitamos e abrimos precedentes perigosos.

Hoje são as pastoras. E amanhã?

Além disso, não posso deixar de te fazer refletir sobre o aspecto humano e relacional. ESTAMOS FALANDO DE PESSOAS, DE IRMÃS EM CRISTO, DE VOCAÇÕES RECONHECIDAS E DE MINISTÉRIOS EM EXERCÍCIO. Existe algo mais coerente biblicamente do que tratar uma pessoa com dignidade e amor?

Negar a comunhão às mulheres não impede o chamado e o exercício da vocação delas, mas fragiliza a unidade e compromete o nosso testemunho público.

Por isso, meu apelo não é por uniformidade, mas por fidelidade à nossa eclesiologia, à autonomia da igreja local, à liberdade de consciência e ao espírito cooperativo que sempre nos permitiu caminhar juntos. Fidelidade ao nosso DNA batista! Ou acreditamos na liberdade e capacidade das igreja locais ou deixamos de ser batistas!

Que o Senhor nos conceda maturidade espiritual para preservar a comunhão sem que precisemos abrir mão das convicções pessoais. Por isso, reafirmo: não desejo persuadi-lo a tornar-se igualitarista, mas a permanecermos, juntos, fiéis ao que nos define como batistas. Meu desejo é que a comunhão seja preservada acima das nossas diferenças. Sigo à disposição para continuarmos essa conversa à mesa, como  irmãos, com respeito e amor. Que Deus nos abençoe!


sexta-feira, 6 de março de 2026

O Que Devemos nos Lembrar no Dia Internacional da Mulher

Celebramos, mais uma vez, o Dia Internacional da Mulher. Não é apenas um “Dia da Mulher”, como se fosse somente uma data de flores ou homenagens, ainda que sejam bem vindas. Esta é uma data que carrega memória, história e significado. É um dia que lembra a caminhada de muitas mulheres que, ao longo dos anos, levantaram sua voz em busca de dignidade, respeito e justiça. 

“Esta é uma data que carrega
memória, história e significado”

No início do século XX, mulheres de diferentes nações começaram a se unir para lutar por direitos básicos, por condições dignas de trabalho e por reconhecimento. Em 1910, durante uma conferência internacional de mulheres trabalhadoras, a líder alemã Clara Zetkin propôs a criação de um dia que lembrasse, em todo o mundo, essa luta e essa esperança. 

Entre os acontecimentos que marcaram essa história está a Greve das operárias têxteis de Nova York de 1908, quando mulheres tiveram coragem de se levantar contra injustiças e condições desumanas de trabalho. Seus passos ajudaram a abrir caminhos para muitas outras. Décadas depois, a Organização das Nações Unidas reconheceu oficialmente esta data, afirmando-a como um momento de reflexão global sobre o valor e a dignidade da mulher. 

Mas esta data também nos chama à consciência. Ainda vivemos em um tempo em que muitas mulheres enfrentam violência, injustiça e o feminicídio. Por isso, o Dia Internacional da Mulher também é um chamado para defender a vida, a dignidade e o respeito que toda mulher merece. 

 “é um chamado para defender a vida, a dignidade e o respeito que toda mulher merece”

Para nós, que cremos em Deus, existe uma verdade ainda mais profunda. A Bíblia declara em Gênesis 1:27 que Deus criou o ser humano à Sua imagem e semelhança. Isso significa que cada mulher carrega em si a marca do Criador. Cada mulher tem valor. Cada mulher tem propósito. Cada mulher é preciosa aos olhos de Deus. 

“Cada mulher é preciosa 
aos olhos de Deus”

Hoje celebramos mulheres que oram, que servem, que cuidam, que lideram, que perseveram. Mulheres que, muitas vezes em silêncio, sustentam famílias, ministérios e gerações. Que este dia seja mais do que uma lembrança histórica. Que seja um momento de honra, gratidão e compromisso: compromisso de reconhecer, valorizar e proteger a vida de cada mulher. 

Vamos orar: 

Senhor nosso Deus, nós te agradecemos pela vida de cada mulher. Obrigado porque o Senhor as criou com amor, propósito e dignidade. 

“Que cada mulher saiba que é vista, amada e valorizada pelo Senhor”

Abençoa as mulheres deste lugar e ao redor do mundo, as mães, filhas, avós, líderes, servas do Senhor. Fortalece aquelas que estão cansadas, cura aquelas que carregam feridas no coração, e levanta cada uma para viver plenamente o propósito que o Senhor tem para sua vida. 

Guarda as mulheres de toda violência, de toda injustiça e de todo mal. Que o teu amor, a tua graça, a tua proteção e a tua paz as envolvam hoje e sempre. Que cada mulher saiba que é vista, amada e valorizada pelo Senhor. Nós oramos assim, confiando no teu cuidado e na tua fidelidade. 
Em nome de Jesus, Amém.

domingo, 2 de março de 2025

Entrevista Pastoras 25 anos! Pra. Silvia Nogueira, Pra. Elisabete Carvalho e Pra. Zenilda Cintra

Jubileu de Prata das Pastoras da CBB:

Elas Vieram para Ficar!

Vital Sousa

Eu não poderia deixar de abrir espaço para as pastoras. É um ministério de suma importância e por isso mereceu um tratamento diferenciado da Vital Publicações ao longo de suas publicações Entrevistar estas três pastoras é um presente de Deus: Silvia Nogueira, Elizabete Teixeira e Zenilda Cintra são apóstolas de Jesus no nosso meio.

Um Jubileu tão importante não pode deixar de ser destacado. Elas têm muito o que dizer. A psicologia diz que as perguntas são mais importantes do que as respostas, eis a exceção:

Vital: Já temos pastoras batistas há mais de 25 anos e, por isso, algumas já estão se aposentando, como a Pra. Elizabete Teixeira Carvalho de Fortaleza, CE. Qual é o seu olhar do ministério pastoral batista no meio da Convenção Batista Brasileira (CBB)?

Pastora Sílvia: O ministério pastoral Batista é diverso. Há pastores fundamentalistas, conservadores e progressistas convivendo desde sempre, pensando em termos de leitura da Bíblia e compreensão teológica. Isto não é um fenômeno contemporâneo, mas parte integrante da identidade dos Batistas. Essa diversidade se aplica também às pastoras. Agora, o que se alterou drasticamente neste tempo foi que, comparando a atuação pastoral dos pastores e pastoras, as pastoras representam um tipo de pastoral menos elitista, mais próxima às congregações, mais consciente do dia a dia dos membros, porque escutam mais e melhor. Digo isso, porque, obviamente, com muitas exceções, o ministério pastoral anda esquecendo das marcas identitárias batistas. Pastores que controlam lideranças e membros com a figura de “pai espiritual”, que não respeitam o modo de sucessão pastoral, estabelecendo clãs de pai para filho nas grandes igrejas, mantendo filiais e não congregações,  são anomalias contemporâneas nascidas no estilo de ministério dos pastores e não das pastoras. Creio que este é um tempo em que os Batistas poderiam servir de referência em democracia e liberdade, mas não tem sido assim. Nesse sentido, as pastoras, sem perder sua autoridade, têm muito a ensinar. Especialmente, nas periferias onde a quase totalidade se





Pastora Elizabete: Meu olhar é cheio de otimismo. Desde 1982 faço parte de uma igreja batista e sei por experiência própria que Deus pode e deseja abençoar o ministério de homens e mulheres vocacionados, como creio que vem Dele o chamado. Temos visto um grande crescimento no Brasil todo, especialmente nas sessões que filiam pastoras.

Pastora Zenilda: As pastoras comemoraram 25 anos da primeira consagração, que foi da pastora Silvia Nogueira, em 2024. em nosso 7º. Congresso #EuDisseSim, em Brasília–DF. Foi um momento de muita emoção e gratidão a Deus porque hoje temos mais de 500 pastoras em todas as regiões do país, sendo 164 filiadas à OPBB. As pastoras vieram para ficar, com resiliência, fé e esperança!


Hoje temos mais de 500 pastoras em todas as regiões do país, sendo 164 filiadas à OPBB”


Vital: A OPBB se diz: “… uma entidade que congrega os Pastores Batistas do Brasil (CBB), visando ajudá-los a um melhor e mais eficiente exercício do Ministério Pastoral, tornando-se melhores servos de Jesus e das igrejas onde atuam”. Ao filiar parcialmente as pastoras, legitimamente consagradas pelas igrejas, negando a muitas essa possibilidade, ela está sendo injusta e discriminatória?




Pastora Sílvia: “Tu o dizes”. Vamos pensar juntos: a CBB não é o escritório de todas as suas organizações. A CBB não é a diretoria, o Conselho, nem o secretário executivo. Tirem de cena as igrejas, e todas as pessoas envolvidas na gestão destes espaços não representam nada em si mesmas. A CBB é cada igreja e congregação na grande diversidade dos Batistas no Brasil. E as ordens são igualmente satélites que orbitam no astro que importa: a igreja, até porque a experiência pastoral está intrinsecamente relacionada a uma igreja. Então, as igrejas Batistas no Brasil têm pastoras titulares e auxiliares em suas experiências comunitárias. É uma realidade denominacional. Irreversível, porque existente desde sempre e legitimada oficialmente desde 1999. Se as organizações ignoram, invisibilizam e inviabilizam a presença das pastoras em seus quadros, posso com tranquilidade afirmar que, no mínimo, estas organizações não se importam com aquilo que desejam e vivem as igrejas Batistas. Mas deveriam urgentemente se alinhar a esta realidade de nossa denominação.


“A CBB é cada igreja e congregação na grande diversidade dos Batistas no Brasil. E as ordens são igualmente satélites que orbitam no astro que importa: a igreja”


Pastora Elizabete: Injusta e discriminatória. É só olhar as leis do país. Nós temos o governo batista, que é congregacional e democrático, legitimando a escolha de tantas mulheres e homens pela igreja local. A OPBB congrega e ajuda estes e estas a exercerem de forma plena seus ministérios pastorais e deveria fazer isso em todo o Brasil, promovendo, defendendo e elevando, sendo uma mão amiga e parceira para todos, o que não acontece, infelizmente.

Pastora Zenilda: Com certeza! Não sei como os pastores, institucionalmente, conseguem conviver com tanta injustiça e discriminação. Não temem a Deus? É fácil ter uma resposta padrão e se juntarem em um lobby contra as pastoras. No entanto, Deus é maior do que qualquer ser humano e instituição. E ele continua chamando mulheres para o ministério pastoral.


“Nós temos o governo batista, que é congregacional e democrático, legitimando a escolha de tantas mulheres e homens pela igreja local”


Vital:  A Pra. Odja Barros, quando ainda era da CBB, caracterizou a OPBB como uma desordem. Apesar da piada inteligente, não se pode comparar o nome de instituição com o antônimo de um subjetivo. E a OPBB não é uma desordem. Mas... a decisão de filiar pastoras deixando as decisões para as subseções/seções não é uma desordem?

Pastora Sílvia: Ora, todos sabem que foi uma decisão política e não necessariamente coerente com a realidade denominacional. Mas os colegas podem sempre rever decisões que não fazem sentido e comprometem o avanço do Reino.

Pastora Elizabete: As Seções e Subseções deveriam seguir a orientação da Ordem Nacional, mas a Ordem Nacional é omissa tantas vezes com o MPF e o que temos é essa situação de invisibilidade que, ao meu ver, isso não muda mais. Temos uma acomodação da realidade pela qual passam as pastoras no Brasil Batista pela OPBB e nós caminhamos como grupo, crescendo dentro do que é possível e marcando a história, como tem acontecido até aqui nesses últimos 25 anos desde que a primeira pastora foi ordenada.

Pastora Zenilda: Acredito que a OPBB hoje é refém das grandes seções, cujas lideranças que permanecem são extremamente conservadoras e os pastores que pensam diferente, e não estou falando em liberais, são ignorados e acabam se afastando. Assim, o pensamento fica hegemônico e excludente. Talvez nem todos da liderança sejam radicais e até já tenham esse esclarecimento a respeito da legitimidade das pastoras. No entanto, não se posicionam publicamente por temerem as retaliações.




Vital: Qual a contribuição que o pastorado feminino tem dado às igrejas, apesar de todas as críticas e violências que as pastoras e suas igrejas recebem?

Pastora Sílvia: Como já disse, as pastoras em geral desenvolvem um estilo de ministério mais humano e horizontal. Esta, por enquanto, é nossa contribuição mais visível. Afinal, o desejo de servir sempre ficou acima inclusive da nossa dignidade. O desejo de servir sempre foi o escudo diante das violências (inúmeras),injúrias e deslealdades. Penso que os colegas se aproveitaram (e ainda se aproveitam) dessa característica da obediência das mulheres ao Mestre e à vocação para usufruírem de seus dons sem as honrar, inclusive, financeiramente. Podem se justificar como quiserem, mas este comportamento indigno com as mulheres em liderança precisa deixar de existir.


O desejo de servir sempre foi o escudo diante das violências (inúmeras), injúrias e deslealdades”


Pastora Elizabete: A contribuição é a mesma que os colegas fazem. Pregamos, visitamos, ensinamos, aconselhamos, pastoreamos a igreja com todadedicação e esforço. É só constatar e ver o que esses quase 30 anos últimos têm para mostrar ao Brasil Batista.




Pastora Zenilda: Precisamos pensar que as pastoras enfrentam os mesmos desafios que os pastores. Lutam com as mesmas dificuldades e ainda se acrescentam as perseguições locais e, muitas vezes, o assédio aos membros. Mesmo assim, Deus tem abençoado e as igrejas crescem e se fortalecem. Além disso,elas servem como espelho para muitas meninas que crescem nas igrejas e podem se inspirar no exemplo dessas mulheres valorosas, corajosas e submissas à vontade de Deus.

Pergunta 5: Mateus 19:26 diz que para Deus nada é impossível. Com base nas palavras de Jesus, como entender os que defendem que Deus não pode alguma coisa, como chamar mulheres para serem pastoras, na hora que Ele quiser e entender? São maiores do que Deus?

Pastora Sílvia: Irmãos e irmãs, quem sou eu e quem são vocês para dizer o que o Deus revelado nas Escrituras pode ou não fazer? Cada um dará conta de sua compreensão a Ele no Grande Dia. Agora, em termos denominacionais, temos um norte: a escolha do ministro(a) é uma decisão da igreja. E a igreja é a denominação.


Cremos na Soberania Divina e que Ele chama homens e mulheres de acordo com seus propósitos soberanos e eternos.


Pastora Elizabete: Nós não temos problemas com essa questão. Cremos na Soberania Divina e que Ele chama homens e mulheres de acordo com seus propósitos soberanos e eternos.

Pastora Zenilda: Acredito que os pastores deveriam estudar mais e não somente para reforçar o que já creem, mas para ampliar o entendimento dos assuntos, no caso a questão do ministério pastoral feminino. Um dos equívocos, por exemplo, é ligar a consagração de mulheres ao liberalismo. É cômodo e atrai muita oposição. Mas não é o caso. As mulheres serviram a Jesus e foram líderes importantes na igreja cristã primitiva.





Vital: Dê as suas considerações finais.

Pastora Sílvia: Irmãos e irmãs, colegas de ministério, os desafios deste tempo, os éticos, climáticos, políticos e cotidianos, precisam ser respondidos por homens e mulheres comprometidos em servir a Deus e as pessoas (e não a si mesmos), a amadurecer na experiência do Evangelho, na imitação misericordiosa de Jesus Cristo e não nos embaraços oriundos dos ódios, dos medos, do desejo de poder e dos egoísmos. Nós podemos mudar sempre. E pra melhor!

Pastora Elizabete: Agradeço à Igreja Batista Esperança, Fortaleza, CE,  pelos 30 anos de reconhecimento da minha vocação pastoral (seminarista, auxiliar e pastora titular por 26 anos) e por respeitar meu desejo de concluir esse ciclo vitorioso agora no último dia 04/janeiro/2025.

Para as futuras gerações de mulheres vocacionada digo que estarei à disposição para encorajamento e apoio diante dos desafios que o chamado requer de cada uma.


“A OPBB como instituição deveria pedir perdão às pastoras por todo o mal que vem infligindo a elas nesses quase 26 anos”


Pastora Zenilda: A OPBB como instituição deveria pedir perdão às pastoras por todo o mal que vem infligindo a elas nesses quase 26 anos. Foram muitas e muitas manobras políticas e carnais para obstruir a caminhada delas, inumeráveis. Somos cientes da hipocrisia de muitos líderes dizendo-se apoiadores e não sendo, tudo em nome de uma carreira denominacional. Somos cientes também das resoluções tomadas e não divulgadas que enganam as igrejas e pastores, tanto da CBB quanto da OPBB, e também do sumiço de Atas e Estatutos que favorecem as pastoras. Somos cientes também daquelas que, entre nós, trabalham contra nós visando comer das iguarias da mesa que, na verdade, nunca chegam a elas. No entanto, Deus continua sendo Deus, num alto e sublime trono, Soberano, a quem amamos e servimos de todo o coração.

(Entrevista publicada originalmente em: https://acrobat.adobe.com/id/urn:aaid:sc:US:a1f7d681-974a-4970-89aa-41ac1cd15ba1?x_api_client_id=edge_extension_viewer&x_api_client_location=share)