Como pastores e lideranças batistas em níveis nacional e estaduais/regionais podem compactuar com decisões que ferem princípios históricos, bíblicos e eclesiológicos tão caros à nossa identidade batista?
Neste artigo, o Pr. Heleénder O. Francisco, da PIB de Goiabeiras (ES), esposo da Pra. Anna Eliza, faz uma análise lúcida e necessária sobre as ameaças à nossa eclesiologia representadas pela não filiação de pastoras à OPBB — realidade vivida no Espírito Santo, mas que reflete uma problemática que se estende por todo o Brasil.
O QUE ESTÁ EM JOGO É A NOSSA ECLESIOLOGIA
Sobre a não filiação de Pastoras na OPBB-ES
Pr. Heleénder O. Francisco
PIB Goiabeiras
Antes de mais nada, preciso deixar claro que não tenho nenhuma pretensão de fazer você mudar
de ideia em relação à consagração de mulheres ao ministério pastoral. Reconheço que existem
divergências teológicas sobre o tema e entendo que tais diferenças, como tantas outras, devem ser
tratadas pela via do respeito, da cooperação e da comunhão, como nós batistas sempre fizemos.
O que eu gostaria de te convidar a refletir não é sobre o seu posicionamento pessoal a respeito do
ministério pastoral feminino, mas se um órgão auxiliar da CBB pode estabelecer critérios que, na
prática, anulam ou se contrapõem a decisões legítimas de igrejas locais devidamente arroladas à
Convenção, que, segundo os nossos próprios documentos, são autônomas e soberanas.
Portanto, passo a apresentar a seguir, alguns riscos a que as decisões que excluem pastoras da OPBB apresentam para a nossa eclesiologia.
1) VIOLAÇÃO DO PRINCÍPIO BATISTA DA AUTONOMIA DA IGREJA LOCAL
A não aceitação de pastoras e nem mesmo a aceitação de transferência das mesmas oriundas de outras seções é uma tentativa de impor uma regra administrativa que se sobrepõe à soberania
teológica da igreja.
• Declaração Doutrinária da CBB - A Igreja: "Sua forma de governo é democrática e autônoma, sob o senhorio de Jesus Cristo... não tendo autoridade sobre as Igrejas as Convenções ou quaisquer
outras entidades".
Nossos DOCUMENTOS OFICIAIS reconhecem que CADA IGREJA LOCAL É AUTÔNOMA E SOBERANA TENDO PLENA LIBERDADE PARA RECONHECER E ORDENAR SEUS MINISTROS, SEM INTERFERÊNCIA DE ÓRGÃOS EXTERNOS.
A autonomia da igreja local é uma marca indelével dos batistas e compete à igreja, e somente a ela, decidir sobre sua liderança. Portanto,
SE UMA IGREJA LOCAL, NO EXERCÍCIO DE SUA AUTONOMIA, RECONHECE O CHAMADO E CONSAGRA UMA MULHER, A OPBB (QUE É UM ÓRGÃO AUXILIAR DA CBB) NÃO PODE INVALIDAR ESSE ATO, SOB PENA DE FERIR O PRINCÍPIO ECLESIOLÓGICO BASILAR DOS BATISTAS, o Estatuto da CBB e o próprio Estatuto da OPBB. Qualquer tentativa de desconsiderar essa ordenação fere diretamente a eclesiologia batista.
2) INCOERÊNCIA COM A NATUREZA DA OPBB
A Ordem dos Pastores Batistas do Brasil (OPBB) não é uma igreja, nem órgão de classe, mas uma
associação de caráter relacional e representativo, sem autoridade para invalidar atos de igrejas
locais ou criar critérios discriminatórios não previstos nos princípios doutrinários mais amplos.
Ao estabelecer uma vedação às pastoras, esta extrapola sua competência e cria um critério que não encontra respaldo nos princípios mais amplos da nossa tradição.
• O Estatuto da OPBB diz: Art. 33. A OPBB é organização auxiliar da CBB e respeitará a letra e o espírito do estatuto da CBB (...)
Se uma pastora foi consagrada em uma igreja batista devidamente afiliada à CBB, a negativa da OPBB em filiá-la fere frontalmente todos os pressupostos que sustentam nossa eclesiologia.
A OPBB não cria ou valida o ministério pastoral. Ela apenas reconhece aquilo que a igreja local já discerniu e formalizou.
3) CONTRADIÇÃO COM A UNIDADE DENOMINACIONAL
Impedir a filiação de pastoras ou a transferência de pastoras já filiadas a outras seções cria um abismo entre as unidades da OPBB e ameaça a unidade denominacional.
• Regimento Interno da OPBB 2024, Art. 2º e Art. 62: Define que a OPBB é constituída por pastores
membros de igrejas filiadas à CBB e que a filiação/transferência deve ser registrada no cadastro nacional pela Seção.
Como a OPBB-ES é subordinada à OPBB Nacional (Estatuto OPBB-ES, Art. 2º), ao criar critérios de exclusão de gênero que impeçam o livre trânsito de filiados regularmente inscritos no Cadastro Nacional da Ordem, ela gera um "constrangimento denominacional" onde uma pastora é aceita no Rio de Janeiro, mas rejeitada
no Espírito Santo, quebrando o princípio da cooperação. Além disso, se uma igreja está devidamente arrolada à CBB, sem nenhum processo disciplinar ou de exclusão por desvio doutrinário, qual a justificativa plausível para impedir que OPBB cumpra seu papel para com essa igreja e seus pastores(as)? Ao fazer isso,
a OPBB cria uma ferida na unidade e cooperação que nossa denominação tanto defende.
4) O PERIGO DA SELETIVIDADE DOUTRINÁRIA
Antes que alguém, em seu íntimo, já esteja dizendo: “Mas isso não é bíblico”, gostaria de lembrar algo que sempre nos caracterizou como batistas.
BATISTAS CONVIVEM COM DIVERGÊNCIAS TEOLÓGICAS SINCERAS SEM ROMPER A COMUNHÃO. Quando afirmamos que algo “não é bíblico”, precisamos também perguntar: não é bíblico a partir de qual leitura?
Esse é um exercício teológico que
todo pastor deveria se esforçar por fazer. Na questão que toco aqui, preciso lembrar que a discussão sobre a aceitação ou não de pastoras se organiza, historicamente, em duas perspectivas teológicas distintas: O IGUALITARISMO E O COMPLEMENTARISMO.
Resumidamente, o IGUALITARISMO entende que homens e mulheres têm igual acesso a todos os ministérios da igreja, inclusive o pastoral, fundamentando-se na nova realidade inaugurada pelo Evangelho, na igualdade afirmada em textos como Gálatas 3.28 e na ação do Espírito Santo que distribui dons a quem ele quer. Assim, o critério para o exercício do ministério não é o sexo, mas o chamado, o caráter e a capacitação concedida por Deus, não vendo coerência em distinguir dom de ofício.
Já o COMPLEMENTARISMO entende que homens e mulheres são iguais em valor e dignidade, mas
exercem papéis distintos na igreja e na família, reservando o pastorado e a liderança principal aos
homens, distinguindo o dom do ofício.
AS DUAS PERSPECTIVAS NASCEM DE ESFORÇOS HERMENÊUTICOS SINCERAMENTE COMPROMETIDOS COM AS ESCRITURAS. Ambas desejam um alinhamento com a Bíblia Sagrada, mas CHEGAM A CONCLUSÕES DIFERENTES.
Ocorre que essa não é a única divergência teológica em nosso meio. Vejamos:
• Entre os batistas, convivemos bem sendo calvinistas ou arminianos. Convivemos bem com diferentes perspectivas escatológicas: amilenistas, pré-milenistas, pós milenistas.
• Entre os batistas, há os que defendem que a pertença à maçonaria é incompatível com a fé cristã e há aqueles que são maçons.
• Entre os batistas há aqueles que sustentam que um pastor divorciado torna-se inapto para o ministério. E há os que sustentam que um pastor divorciado pode pastorear sem nenhum problema.
• Entre os batistas temos diferentes perspectivas sobre o modo de celebrar a ceia (livre, ultra livre,
restrita, ultra restrita).
Em todos esses temas, há irmãos igualmente comprometidos com as Escrituras, que chegaram a
conclusões diferentes por caminhos hermenêuticos distintos.
Mas, a lista é bem maior. Falta espaço para falar das diferenças interpretativas relativas aos dons espirituais, dança na igreja, movimentos como Encontro com Deus ou Legendários, modelos de igrejas (células, MDA e afins), formas de conduzir a liturgia e por aí vai. TODAS ESSAS POSIÇÕES DIVERGENTES BUSCAM SUSTENTAÇÃO EM INTERPRETAÇÕES DA BÍBLIA E A BELEZA DE SER BATISTA ESTÁ JUSTAMENTE EM RECONHECER O QUE É ESSENCIAL E MANTER A COMUNHÃO NISSO.
Todos os pastores e igrejas, apesar de suas diferentes visões doutrinárias nestes e em outros temas, continuam convivendo na CBB e na OPBB, sem problema algum. Tratar a diferença de interpretação a respeito do ministério pastoral feminino pela via da exclusão é um golpe fatal no princípio batista da unidade na diversidade.
O que se nega às pastoras não é o exercício do pastorado (porque isso elas já fazem e
continuarão fazendo); é a comunhão e a justiça ao que a nossa eclesiologia defende.
5) O PERIGO DA INJUSTIÇA E DA NEGAÇÃO DA DIGNIDADE DE TODO SER HUMANO
Muitos que rejeitam o ministério pastoral feminino nunca ouviram uma pastora, nunca dialogaram
seriamente sobre o tema, nunca oraram a respeito e nunca tiveram contato com argumentos teológicos diferentes dos seus. Sequer pesquisaram a fundo a visão igualitarista para ter mais clareza de seus posicionamentos.
Mais grave ainda, as decisões tomadas a respeito das mulheres na OPBB se deram sem a participação efetiva das próprias mulheres diretamente afetadas. Elas sequer foram ouvidas! Não lhes tratamos com a mínima dignidade, pois sequer lhes demos o direito de poderem se defender! Isso me parece profundamente estranho ao nosso ethos batista, que sempre valorizou o diálogo, a escuta, o direito ao contraditório e a responsabilidade comunitária.
Me pergunto: É justo decidir sobre a vida de alguém sem lhe dar voz?
É justo desconsiderar decisões de igrejas locais autônomas devidamente arroladas e que jamais sofreram processo disciplinar?
É justo negar comunhão a irmãs que estão servindo nos mesmos campos que seus colegas pastores?
Ora, desde 1999 as mulheres são consagradas em igrejas da CBB. As pastoras vêm ocupando, inclusive, espaços na diretoria da CBB e da OPBB. É justo o que a OPBB-ES vem fazendo com elas?
CONCLUSÃO
Diante do exposto, clamo por humildade e responsabilidade a respeito do tema. O que está em jogo não é apenas uma decisão administrativa, mas a coerência da nossa identidade batista e da eclesiologia que abraçamos. Nunca fomos um povo de uniformidade, mas de unidade em meio à diversidade.
A HISTÓRIA DOS BATISTAS É MARCADA PELA CONVIVÊNCIA ENTRE DIFERENTES COMPREENSÕES TEOLÓGICAS, SUSTENTADAS PELA CONVICÇÃO DE QUE CRISTO É O SENHOR DA IGREJA E DE
QUE CADA COMUNIDADE LOCAL RESPONDE DIRETAMENTE A ELE.
O que me preocupa, portanto, não é a divergência, mas a forma como lidamos com ela. Quando um órgão auxiliar estabelece critérios que, na prática, desconsideram decisões legítimas das igrejas locais devidamente arroladas, ultrapassamos limites que sempre respeitamos e abrimos precedentes perigosos.
Hoje são as pastoras. E amanhã?
Além disso, não posso deixar de te fazer refletir sobre o aspecto humano e relacional. ESTAMOS FALANDO DE PESSOAS, DE IRMÃS EM CRISTO, DE VOCAÇÕES RECONHECIDAS E DE MINISTÉRIOS EM EXERCÍCIO. Existe algo mais coerente biblicamente do que tratar uma pessoa com dignidade e amor?
Negar a comunhão às mulheres não impede o chamado e o exercício da vocação delas, mas fragiliza a unidade e compromete o nosso testemunho público.
Por isso, meu apelo não é por uniformidade, mas por fidelidade à nossa eclesiologia, à autonomia da igreja local, à liberdade de consciência e ao espírito cooperativo que sempre nos permitiu caminhar juntos. Fidelidade ao nosso DNA batista! Ou acreditamos na liberdade e capacidade das igreja locais ou deixamos de ser batistas!
Que o Senhor nos conceda maturidade espiritual para preservar a comunhão sem que precisemos abrir mão das convicções pessoais. Por isso, reafirmo: não desejo persuadi-lo a tornar-se igualitarista, mas a permanecermos, juntos, fiéis ao que nos define como batistas. Meu desejo é que a comunhão seja preservada acima das nossas diferenças. Sigo à disposição para continuarmos essa conversa à mesa, como irmãos, com respeito e amor. Que Deus nos abençoe!
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